Escola de Teatro Célia Helena Notícias Teatro Escola Célia Helena 40 anos: um olhar maduro sobre a formação em artes cênicas

Teatro Escola Célia Helena 40 anos: um olhar maduro sobre a formação em artes cênicas

Blog da instituição lança série comemorativa de aniversário, relembrando os marcos de sua história

Quando adolescente, em algumas noites Lígia Cortez jantava duas vezes. A primeira era para matar a fome. A segunda acontecia horas mais tarde, quando a mãe, Célia Helena, chegava em casa depois de representar no palco. Era para matar a sede das histórias que ela contava, principalmente sobre o contato que tinha com o público depois que as cortinas caíam.

É que alguns dos papéis de Célia provocavam tanta empatia na plateia que, não raro, as pessoas a esperavam na saída do teatro. “O público abraçava a minha mãe… abraçava mesmo!”, lembra Lígia, dando ênfase ao carinho daqueles que procuravam conversar com Célia. “Ao chegar em casa, ela precisava de um tempo. As pessoas depositavam uma energia muito forte nela porque se viam representadas na peça. O teatro é mesmo um caminho de autoconhecimento.”

A atriz Célia Helena em atividade no teatro escola fundado por ela em 1977 – FOTO: ACERVO CÉLIA HELENA


Essa ideia de autoconhecimento integra a filosofia do Teatro Escola Célia Helena (TECH) desde sua inauguração, em 27 de junho de 1977. Em entrevista à Folha de S. Paulo a exatos sete dias da abertura do local — com nada menos do que um show de Maria Bethânia —, Célia fez um comentário pessoal sobre o efeito de aprender a arte cênica. “O teatro mexe com o ser humano. Eu me humanizei graças ao teatro. Você passa a ter consciência de si mesmo. Um curso de teatro pode fazer com que o adolescente comece a se conhecer.”

A vontade que Célia tinha de passar adiante o seu conhecimento era tão visceral quanto sua atitude no palco. Ao fundar a escola em uma desativada fábrica de carimbos no bairro paulistano da Liberdade, a artista já contava com 25 anos de carreira em teatro, cinema e televisão. Já tinha trabalhado com todos os grandes nomes das cênicas na época, mas não estaria completamente realizada se não se dedicasse ao ensino.

GESTAÇÃO

A experiência de Célia com a formação começa cinco anos antes da criação do TECH. Em 1972 ela cria a Companhia Teatro Didática — uma forma de aplicar as artes cênicas na educação, auxiliando nos processos de ensino. Não eram espetáculos de caráter utilitário, abordando conteúdos para vestibular, por exemplo. Eram peças que se aproximavam da literatura brasileira, apresentando aos jovens autores como Machado de Assis, Manuel Bandeira e Clarice Lispector.

O grupo recebia o público em um galpão na rua Clélia, na região da Lapa, em São Paulo. Hoje agitado principalmente pela programação do Sesc Pompeia ali instalado, o local era ermo naquele tempo.

Foi a primeira vez que, com uma trajetória já sólida, Célia se distanciou dos trabalhos voltados para sua carreira pessoal e passou a se dedicar a uma atividade mais ligada à formação, ao outro. “Era uma companhia própria, com sua cara, sua ideologia, em um lugar não convencional”, lembra Lígia, reforçando o vanguardismo de sua mãe.

INFLUÊNCIAS E PILARES

Três anos depois, Célia organiza a Primeira Vivência Coordenada de Teatro. É uma expansão de seus ideais: sai do galpão da Lapa e vai à periferia da capital paulista, a outras cidades do estado, à então Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) e órgãos assistenciais. Leva sua arte a jovens que, se não fosse por esse projeto, talvez nunca tivessem acesso ao teatro.

Nessa época, Célia fazia autores como Tchekhov serem portáteis, levando-os para onde conseguisse. “Nessa ‘mambembação’, os locais que recebiam as peças também abrigavam oficinas de teatro”, explica Lígia. As companhias locais eram, então, fortalecidas pela troca de conhecimentos dos cursos. E, caso não existissem grupos locais, jovens estudantes eram convidados a experimentar o fazer teatral.

“Lembro que, cada vez que minha mãe voltava no começo da semana, ela chegava absolutamente encantada com cada cidade, com cada cultura diferente que tinha conhecido no estado de São Paulo”, diz Lígia. “Eu considero que o TECH começou, de fato, nesse projeto.”

Fachada da antiga sede do Teatro Célia Helena, no bairro da Liberdade – FOTO: ACERVO CÉLIA HELENA

Não há dúvidas de que todo o arsenal que Célia usava para montar as oficinas tinha colaborações de nomes essenciais na história do teatro paulistano, paulista e brasileiro. Estavam ali presentes suas relações artísticas com Zé Celso — com quem ela havia trabalhado no Teatro Oficina —, com Augusto Boal e com Eugênio Kusnet. Sua paixão pelo teatro russo também era transmitida aos jovens participantes dos cursos. Esses conhecimentos eram e continuam sendo os pilares do projeto.

Segundo Lígia, o trabalho de Célia como atriz sempre alimentou sua carreira como formadora. E os processos de formação também alimentavam sua atitude no palco. Apesar de, naquela época, já ser uma atriz consistente, o cotidiano não era fácil para ela. “Lembro da angústia que minha mãe tinha para viver, ganhar, trabalhar. Dava sequência à carreira de atriz, estruturava a escola, tinha ainda que me sustentar.”

O gás de Célia Helena vinha da empolgação e da responsabilidade que tinha como formadora. Era um processo de retroalimentação: todo formador de arte precisa, prévia e concomitantemente, ter uma experiência artística.

TEATRO NÃO SE FAZ SÓ

Com a escola inaugurada e um time de educadores de primeira, o próximo passo era estabelecer uma comunicação efetiva entre todos os envolvidos no TECH. Apesar de a instituição ter começado tímida, mais voltada para a pesquisa e sem grandes alardes, o diálogo era, e é, sempre bem-vindo.

Célia passou a organizar muitas palestras para agitar o espaço na Liberdade. O galpão frequentemente recebia artistas de fora. Maria Bethânia que, como já dito, fez o show de inauguração do teatro, foi um luxuoso começo. Depois da cantora, pisaram no palco do teatro diversos grupos, como o Arena, que traziam ótimas peças.

Estabeleceu-se ali um ponto de efervescência cultural. Além de teatro, era possível conferir performances, workshops e shows. Cartola e Alcione, por exemplo, fizeram apresentações marcantes. O ator e diretor Rubens Corrêa ministrou sua última oficina. “O próprio Raul Cortez frequentava a escola constantemente para se reciclar”, diz Lígia, em referência ao pai. “Ao falar sobre o próprio trabalho, ele conseguia repensar sua própria carreira, assim como muitos outros que palestraram no Célia.”

Um dos seminários organizados no Célia Helena: espaço aberto para discussões e crescimento – FOTO: JOÃO CALDAS

A troca segue no DNA da instituição, com reuniões recentes que se tornaram grandes marcos. Em 2015, por exemplo, o seminário São Paulo – Cena Contemporânea reuniu nomes como Maria Thereza Vargas, Hugo Possolo e Nabil Bonduki, além dos próprios alunos, em conversas francas, abertas e livres de hierarquia. No espaço histórico na Liberdade, discutiu-se teatro, ensino e as relações da arte com a cidade.

Enquanto diretora da instituição, Lígia celebra ter mantido um grupo coeso de educadores, que vão além de meros professores contratados. “Temos um coletivo de formadores que pensam sobre teatro, que fazem teatro, e que sabem a importância do trabalho em sala de aula para o panorama cênico brasileiro.”

EVOLUÇÃO INTENSA

Apesar de os pilares terem sido mantidos ao longo dos 40 anos do TECH, não se pode dizer o mesmo sobre a estrutura do curso. De lá pra cá, muita coisa mudou — ainda bem!

A escola foi inaugurada com um curso livre de teatro, sendo essa a única possibilidade então existente. O ensino formal de Artes Cênicas no Brasil era recente. Em São Paulo, a Escola de Comunicação e Artes da USP estava em seus primeiros anos.

Informalmente, o TECH contava com um conselho criado pela própria Célia. Na realidade, era ela que tinha o hábito de juntar seus amigos para falar sobre a instituição. Era tempo de ditadura, a classe artística precisava, de fato, de união e reflexão em conjunto.

A história do Célia Helena, de certa forma, se mescla com a trajetória do ofício de ator no país. No ano seguinte à inauguração da escola, a profissão foi regulamentada — uma conquista que resultou, entre outras forças, do ativismo da atriz Lélia Abramo. “Quando o sindicato conseguiu a regulamentação, a própria Lélia ligou para a minha mãe para pedir a regularização do TECH”, lembra Lígia. Era importante que o Célia Helena desse continuidade a este marco. Assim, após algumas adequações, a instituição passou a oferecer um curso regular profissionalizante.

Com o passar dos anos, a sede na Liberdade começou a ficar pequena para a instituição. Era necessário encontrar mais um ambiente. Foi quando, em 1997, o TECH chegou ao bairro Itaim Bibi, na avenida São Gabriel. Naquele tempo, o local era um ponto esquecido na cidade, muito diferente da ótima estrutura que se vê hoje por ali.

Lígia Cortez: Filha de Célia, foi aluna e hoje é diretora da instituição – FOTO: ACERVO CÉLIA HELENA

Célia Helena faleceu no ano da mudança, deixando a direção da escola para as mãos da filha Lígia. No Itaim Bibi, o TECH continuou crescendo: já com carga horária maior do que a necessária para um curso superior, o técnico profissionalizante deu origem a uma outra modalidade de ensino, a graduação, ampliando a oferta de cursos na escola. A transição foi trabalhosa: era preciso se adequar a algumas regras, mas não se podia deixar perder a essência do Célia. Logo vieram os cursos de pós-graduação, até a abertura do mestrado em 2017.

PIONEIRISMO E FORÇA FEMININA

Em tempos de um reconhecimento cada vez maior da mulher pela sociedade, é difícil deixar de lembrar que Célia era, antes de tudo, uma mulher. A escola, seu maior legado, ficou nas mãos da filha. E a direção sempre foi majoritariamente feminina.

O Teatro Escola Célia Helena nunca teve nenhum apoio governamental. Nas últimas quatro décadas, configurou-se como um lugar de autonomia, independência e consciência a respeito do teatro e da arte — aplica na prática os valores passados para os alunos em sala de aula.

Dessa filosofia, resulta o pioneirismo. No Brasil, o TECH foi a primeira instituição de teatro a fazer um trabalho cênico para jovens e adolescentes, a se envolver com ações filantrópicas e a levar a arte para pessoas que dificilmente teriam acesso ao fazer teatral. O desejo é seguir contribuindo significativamente com a construção do teatro nacional.

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